sábado, 24 de outubro de 2015

A Hollywood de Wellington / Por Pádua Marques*



Ainda bem que eu não desci dos meus gastos chinelos de final de semana pra ir na segunda-feira dia 19 até a praça da Graça assistir à cerimônia do desfile e hasteamento de bandeiras, dentro da programação do Dia do Piauí. Mas pelo que andei sabendo pelos noticiosos havia muita gente mesmo com aquele terror de sol, coisa de esquentar o quengo de qualquer um e também não ter picolé dentro de caixa de isopor que chegasse pra refrescar a serpentina da goela.


Eu não sou besta pra me tacar daqui de casa no bairro Rodoviária, perto do Hospital Dirceu, tamanho feriado e ficar torrando os couros no sol esperando uma maldita van pra me levar até a praça da Graça. Ora, se já é difícil e demorado pegar um transporte no meio da semana, quem dirá em dia de feriado ou em final de semana! Porque até hoje uma das minhas maiores contrariedades é essa Parnaíba não ter transporte público que preste.
Mas fiquei sabendo que Wellington Dias, governador do Piauí, chegou a declarar que vai ordenar á sua Secretaria de Cultura, sob a batuta de Fábio Novo, que mova céus e terras pra que seja realizado um filme sobre este movimento de adesão à independência do Brasil, ocorrido quase na porta da igreja da matriz em Parnaíba, na mais que distante província do Piauí em 1822. Este fato está registrado nos anais da história e num quadro belíssimo, mas jogado no fundo de uma sala no Casarão de Simplício Dias, na dita avenida Presidente Vargas.
Mas o governador Wellington Dias é realmente um grande político. Sabe ele cativar e conquistar plateias assim na maior e mesmo naquela situação mais saia justa ele sabe se sair direitinho. No meio daquela turma de correligionários, militantes do PT, amigos, prefeitos, secretários, políticos, assessores e bajuladores, o governador prometeu todo o empenho pra que seja realizado um filme sobre este ocorrido há 193 anos. Certamente que todos aqueles que estavam ao seu lado concordaram com acenos de cabeça e até alguns mais afoitos ensaiaram uma salva de palmas.
E lá na praça da Graça, este lugar tão sagrado da Parnaíba e tão profanado todo santo dia com as maiores mentiras e lorotas de tudo que é tipo de gente, o povo certamente deve ter ficado de boca aberta achando que é verdade. Uns mais empolgados sorrindo de orelha a orelha. Como é que pode uma coisa dessas! Tudo é encantamento porque o circo tem essa magia, esse poder de deixar a gente feito besta quando é criança. E criança ainda se engana com pirulito e Papai Noel.
E me lembra, melhor dizendo, me ponho a pensar uma daquelas cenas do ilusionista no meio da praça cheia de meninos e ele ali executando com toda a classe, aquela oratória vibrante e elegância seu ofício. E as crianças, velhos desdentados, bêbados, notívagos, toda sorte de gente ordinária vão batendo palmas e, silenciosamente se perguntando, como ele esconde aquelas moedas todas entre os dedos e depois elas reaparecem atrás da orelha do menino? Como deve ser pra tirar uma pomba da cartola? E aquele lenço enorme que ele tira de dentro da caixa e depois vira uma flor? O que ele faz pra que aquela mulher seja cortada ao meio e depois apareça inteirinha da silva? Como ele consegue se desvencilhar de todos aqueles laços ou cadeados? E aquele monte de punhais enfiados naquela caixa?

Como deve ser que aquele periquito consegue adivinhar a sorte das pessoas naqueles minúsculos bilhetes com aquele homem empurrando pra cima e pra baixo aquele realejo francês? Agora mais essa. Um filme sobre o movimento da adesão à independência do Brasil na província do Piauí. Esse negócio de filme custeado pelo Estado me ocorre lembrar outros casos já passados e que nunca ninguém chegou a ver no que deram. Realmente o cinema é um grande negócio e a grande ilusão do momento. 

* Pádua Marques é jornalista e escritor.

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